LAVRADO – A savana amazônica de Roraima que o Brasil precisa conhecer e proteger

Publicação científica esclarece mitos sobre o Lavrado, desmistifica comparações com o Cerrado e alerta para os riscos ambientais que ameaçam essa savana única da Amazônia brasileira

O livro, organizado pelo renomado pesquisador Reinaldo Imbrozio Barbosa e com a contribuição de diversos autores e autoras, busca destacar a importância do Lavrado para a sustentabilidade ambiental, a biodiversidade e o bem-estar humano, ao mesmo tempo em que expõe as graves ameaças que enfrenta

Sheneville Araújo

Imagine uma vastidão de campos abertos, pontilhados por ilhas feitas de florestas exuberantes, rios e lagos que se enchem e esvaziam com as estações das chuvas.

Essa é a imagem do Lavrado de Roraima, a maior savana contínua do norte da Amazônia brasileira. Uma paisagem única que abrange impressionantes 42.706 quilômetros quadrados, se estendendo pela tríplice fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela – uma área quase do tamanho do estado do Rio de Janeiro e maior que a Suíça.

Apesar dessa descrição ser do que é considerada uma verdadeira “relíquia” paisagística, que surgiu e foi moldada por milhões de anos de mudanças climáticas e geológicas, há muita gente que confunde o Lavrado com o Cerrado (bioma com vegetação densa de arbustos e gramíneas, com árvores baixas e tortuosas que ali ocorrem), ou pior, pensa que trata-se de uma imensa área desmatada em Roraima.

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Mas a recém-lançada obra “Lavrado de Roraima: Caracterização, Biodiversidade, Populações Humanas e Conservação na Maior Savana do Norte da Amazônia Brasileira” vem para esclarecer esses “mal-entendidos” e apresentar importantes informações sobre esse bioma do Brasil, de características singulares.

Publicada neste mês de julho pela Editora Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas Ambientais) e apresentada na 77ͣ Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência),  que ocorreu entre 13 e 19 de julho, em Recife, no estado de Pernambuco, a publicação organizada pelo renomado pesquisador Reinaldo Imbrozio Barbosa, com a contribuição de diversos autores e autoras, reúne dezenas de estudos que oferecem um panorama inédito sobre o Lavrado de Roraima, abordando riquezas e especificidades encontradas no território analisado, além de mencionar as ameaças atuais e o papel fundamental que essa área desempenha no equilíbrio ambiental da Amazônia e do planeta.

Para aquelas pessoas que não são da área da pesquisa, mas que se interessam por esse tipo de conhecimento, é possível dizer que ao lerem a obra, poderão se deparar com um retrato detalhado sobre o Lavrado, mostrando que se trata de um ecossistema (grupo de seres vivos que habitam o local) fundamental, podendo aprender ainda sobre a rica biodiversidade, principais funções ecológicas, além da profunda relação com os povos indígenas que o habitam.

Já para profissionais das áreas de conhecimento que compõem a publicação, a análise mais provável é de que pode ser encarada como uma espécie de guia, que oferece uma contribuição multifacetada e essencial, consolidando as pesquisas já existentes e apontando caminhos para futuras investigações e ações.

O livro não apenas entrega um volume significativo de dados e análises sobre o Lavrado, mas também desafia percepções preexistentes, passando pelas complexas conexões entre ecossistemas e sociedades, e convidando o público para uma ação urgente, baseada em evidências da necessidade da conservação e o desenvolvimento sustentável dessa singular savana amazônica.

É como um diagnóstico completo sobre o Lavrado, mostrando o quanto esse bioma é interessante e essencial, e que precisa ser tratado com mais prioridade para que continue oferecendo todos os benefícios para toda a Amazônia e além.

Paisagem natural, não floresta destruída

Para quem chega a Roraima pela primeira vez, a paisagem aberta — coberta por campos abertos, buritizais e poucas árvores de grande porte — pode causar espanto. Isso porque uma viagem à região amazônica geralmente traz também na bagagem a expectativa de encontrar floresta densa. Mas como um imprevisto, daqueles que podem ocorrer em qualquer deslocamento para o novo, nessa incursão, para as pessoas desavisadas é preciso que a mala seja reorganizada para dar lugar a um olhar mais preciso e atualizado: uma savana ampla. O problema é que muitas vezes logo surgem os mitos: “isso aqui foi tudo desmatado?”, “é cerrado?”, “a Amazônia já acabou, quando chegamos aqui?”.

Entretanto, a obra Lavrado de Roraima responde com firmeza: toda essa paisagem, diferente do imaginário de parte significativa da população, é um ecossistema natural. Trata-se da maior área contínua de savana do extremo norte da Amazônia brasileira, com cerca de 62,7% das savanas dessa região trinacional (Brasil, Guiana e Venezuela). A vegetação aberta existe há milhões de anos, resultado, segundo as pesquisas, de processos tectônicos, erosivos e climáticos. Nada foi “derrubado” para ele existir — ele sempre foi assim.

A questão é que Lavrado de Roraima é uma região de vasta riqueza e complexidade, muitas vezes mal compreendida até mesmo por quem vive próximo a ela, e desconhecida para a maioria das pessoas de fora, que se surpreenderia ao compreender que dentro da Amazônia existe também uma importante e diferente área de savana.

Cerrado? Também não

Tal esclarecimento pode até ser encarado como uma contestação para outras definições já divulgadas e consideradas em estudos diversos, que tratam o Lavrado como Cerrado. Mas, embora compartilhe algumas características e funções ecológicas com o Cerrado do Brasil Central, como predominância de certas famílias botânicas (grupo de plantas), a polinização (processo para a reprodução de muitas plantas), a distribuição de sementes, entre outras, o Lavrado, conforme os estudos apresentados na publicação, é ecologicamente distinto.

Meta-análises (combinação de resultados de múltiplos estudos independentes) botânicas mostram que as espécies vegetais que fazem parte dessa área, formam conjuntos diferentes dos encontrados no Cerrado, além de outras distinções como composição e funções da fauna, a hidrologia (ocorrência, distribuição, circulação, propriedades físicas e químicas da água e as interações com o ambiente) e mais especificamente as espécies de cupins, insetos considerados engenheiros do ecossistema.

Em resumo, enquanto o Lavrado e o Cerrado são ambos “savanas” e compartilham características e funções semelhantes para a dinâmica do ambiente, também são diferentes, cada um com sua própria biogeografia (distribuição de espécies e ecossistemas), os tornando únicos, especialmente em termos de fitofisionomias (aparência geral e estrutura da vegetação em uma determinada área) e algumas interações faunísticas específicas (relações e interações entre diferentes espécies animais em um ecossistema).

Além do valor intrínseco, essa biodiversidade presta serviços ao ecossistema que são considerados fundamentais como polinização, dispersão de sementes, controle de pragas, fertilização do solo e regulação do ciclo da água.

Riqueza biodiversa ameaçada

Segundo as pesquisas apresentadas, o Lavrado abriga centenas de espécies endêmicas (nativa e exclusiva de uma determinada região geográfica) e raras. São pelo menos 750 espécies de plantas traqueófitas (grupo diversificado de plantas que possuem tecidos especializados para o transporte de água e nutrientes, chamados de xilema e floema, como, por exemplo, as samambaias, arbustos e plantas com flores), 500 espécies de aves, 188 espécies de herpetofauna (sapos, lagartos, répteis), dezenas de mamíferos e mais de 1.700 artrópodes (animais invertebrados com corpos segmentados e articulados, como gafanhotos e aranhas) registrados. As áreas úmidas da região, que funcionam como filtros naturais de água, abrigam peixes como a piaba (Hemigrammus stictus) e o peixe-lápis (Nannostomus spp.), além de buritizais e igarapés que interconectam todo o sistema hidrológico.

Com isso, trata-se de uma área classificada como de “altíssima prioridade para conservação”, mas que sofre uma crescente pressão da ação humana por diferentes atividades.

Os dados apresentados revelam que entre 2008 e 2024, a ocupação fora das Terras Indígenas saltou de 39% para 75%. Queimadas, desmatamento de matas ciliares, poluição de igarapés e contaminação por mercúrio são apenas algumas das ameaças que fragilizam o ecossistema.

“As alterações na paisagem do Lavrado são resultado da conversão de seu ambiente natural para atividades agrícolas, e não de um desmatamento de floresta para a criação de savana”, aponta um dos trechos do livro.

Pesquisadores e pesquisadoras envolvidas na produção deste estudo apresentam a conservação do Lavrado como uma estratégia fundamental para reduzir eventos climáticos extremos, proteger a diversidade biológica, salvaguardar patrimônios e garantir a economia e o bem-estar humano regional.

Segundo as análises publicadas, o Lavrado funciona como uma espécie de grande “pulmão e filtro” do Norte da Amazônia, filtrando o ar e purificando as águas com vastos campos e áreas úmidas.

Os povos indígenas são indicados como parte fundamental para a sustentabilidade desse bioma, que tem apenas 0,5% da área total sob alguma forma de conservação. O manejo que desenvolvem nas localidades que habitam, incluindo o uso rotativo do solo, preservação de espécies nativas e regeneração natural das áreas de cultivo, se destacam como práticas sustentáveis.

Esses fatores contribuem para a manutenção do desempenho duplo do Lavrado, que tem a capacidade de regular o clima e o ciclo da água, contribuindo para o equilíbrio de todo o bioma amazônico.

Assim, é possível verificar com esses estudos que o Lavrado é mais do que uma vasta área de savana; é um complexo ecossistema de vital importância biológica, hidrológica e cultural. “Ignorar a importância do Lavrado é como ignorar a função vital dos pulmões ou dos rins para a saúde de um corpo inteiro”, aponta um trecho do livro.

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