Produzido por um pesquisador apaixonado por ciência e sabor, o primeiro chocolate bean-to-bar desenvolvido totalmente em Roraima, conecta tradição, ciência, inovação e sustentabilidade, e já inspira um novo ciclo regional para o cacau

Sheneville Araújo
Recém-disponibilizado nas prateleiras boavistenses, o chocolate Caroebe é o primeiro tipo bean-to-bar (feito a partir da amêndoa integral do cacau até a barra de chocolate) produzido e comercializado em Roraima
Foto: Divulgação/Jardim Café
A diversidade cultural e os recursos naturais de Roraima inspiraram o cientista Reinaldo Imbrozio Barbosa, que é referência quando o assunto se trata de investigações sobre mudanças climáticas e estudos do lavrado (savana amazônica), em uma nova empreitada.
Ele decidiu transformar o conhecimento que já desenvolvia, por meio de pesquisas de impacto nacional, em sabores e criou uma nova opção de um produto que já é consumido mundialmente, mas agora com a identidade calorosa de um estado localizado quase que totalmente acima da linha do Equador, da parte mais extrema ao Norte do Brasil, onde não há só florestas, mas uma diversidade de ecossistemas, incluindo o lavrado, que desafia o imaginário comum sobre a Amazônia.

Foto: Divulgação/ATTA Casa e Café
O chocolate Caroebe, totalmente artesanal, com textura rústica e gosto intenso, é fruto da combinação entre ciência, território e memória gustativa. Recém-chegado às prateleiras boavistenses, é o primeiro alimento tipo bean-to-bar (feito a partir da amêndoa integral do cacau até a barra de chocolate, sem segmentação de etapas nem aditivos artificiais) elaborado e comercializado localmente. Até então, a produção de cacau roraimense, concentrada na região sul do Estado, era praticamente toda exportada para o estado de Rondônia, passando agora a atender pontualmente à demanda de produção local, que começa a se refinar com essa iniciativa.

Além das variedades comerciais de cacau que são cultivadas no sul de Roraima sob diferentes formas de manejo, incluindo o sistema agroflorestal (modelo de cultivo sustentável que integra árvores e lavouras), há também um grande destaque para o cacau silvestre (variedade nativa que cresce naturalmente na floresta, sem cultivo direto pelo ser humano). Esse último é aproveitado por uma indústria do estado do Pará que importa cacau silvestre diretamente do povo Yanomami-Yekuana, produzindo um chocolate de alta qualidade que é vendido principalmente em lojas virtuais, não estando atualmente disponível para vendas em lojas físicas de Roraima.
A novidade, o chocolate Caroebe, nasceu da paixão pelas regionalidades do extremo Norte do Brasil e da vontade constante de aprender, que Imbrozio cultiva. Mesmo com mais de 40 anos de formação e carreira dedicada às áreas de Ecologia Florestal e Dinâmica de Ecossistemas, com quase o mesmo tempo percorrido com atuação em Roraima, ele afirma continuar fascinado pela busca constante de conhecimento.
Assim, o costume de experimentar novos sabores e novas fórmulas, já praticado com as pimentas nativas, passou agora para outro sabor, o do cacau, que leva muita gente a admitir um vício, aceitando a denominação de chocólatra, devido ao enorme gosto pelo produto.
Segundo Imbrozio, o novo interesse já rondava a cabeça dele há algum tempo, começando depois que ele assistiu uma reportagem sobre produção e comercialização do cacau de Roraima. Mas foi no final do ano passado (2024), que ao se deparar com o fruto em um supermercado local, resolveu iniciar as primeiras experiências em busca de um chocolate que atendesse inicialmente o gosto pessoal dele.
Ele relatou que a produção do chocolate foi feita com muito cuidado, seguindo um método que criou para alcançar exatamente o tipo de sabor e textura que imaginava. Para isso, cada etapa (da fermentação à torra) foi controlada cuidadosamente, com atenção aos detalhes, para garantir um resultado com a rusticidade que ele buscava.

“Comprei alguns frutos e comecei o processo totalmente no sistema de aprendizado. Porque eu precisava ter o meu método específico. Comecei pela extração das amêndoas de cacau; a seleção das amêndoas; depois da extração a fermentação; da fermentação parti para a secagem; da secagem a torra e, partir daí, entender que tipo de perfil de torra buscar para poder produzir um chocolate específico, com as características próprias. Após muitos testes, consegui chegar a um chocolate com um perfil mais voltado para o frutado, cheirando a uva passa, banana passa”, explicou, declarando que “Nada é feito sem ciência. Da comida, ao campo ou sistema florestal, seja o que for, nada acontece sem método. Isso é ciência pura.”
Assim, ao passar por todo esse processo, o primeiro chocolate bean-to-bar de Roraima, teve a última versão, depois de semanas de experimentação, finalizada no mês de maio, com identidade demarcada e personalidade diferenciada.

Foto: Divulgação/ATTA Casa e Café
“O chocolate Caroebe valoriza a textura rústica-arenosa e o sabor pronunciado do cacau, em oposição ao refinamento excessivo das grandes empresas. É aquele chocolate que você coloca ali na boca e sente a areinha. Porque ele não é totalmente refinado”, descreveu o criador.
E de apenas 20 unidades iniciais para compartilhar com familiares e pessoas mais próximas, em dois meses, quase 300 unidades produzidas artesanalmente foram comercializadas em cinco cafeterias da Capital de Roraima, Boa Vista, contando com o produto disponível nas opções de teor de cacau 70% (o primeiro criado) e 55% (surgido das demandas registradas nos pontos de vendas).
Fidelizando a clientela

Foto: Divulgação/ATTA Casa e Café
Mesmo recém-chegado às prateleiras, por meio das parcerias firmadas por Imbrozio com as cafeterias, o chocolate Caroebe já está traçando o caminho da fidelização de consumidores e consumidoras e com passos firmes para se consolidar no mercado.
Feito dentro do conceito chocolate bean-to-bar, que segue uma receita com perfil de torra específico, livre de conservantes artificiais, aromatizantes artificiais, gorduras transgênicas e/ou hidrogenadas, emulsificantes artificiais, o Caroebe, além de apresentar intensidade de sabores e texturas, também acaba oferecendo propriedades mais saudáveis para um público que cada vez mais busca esses tipos de características antes de consumir qualquer produto.
É o caso da professora Ayana Medeiros, que está finalizando o doutorado e encontrou no prazer à mesa uma forma de relaxar, mantendo o equilíbrio nessa etapa intensa da vida. Para não abrir mão do bem-estar, ela opta por escolhas mais saudáveis e o chocolate Caroebe se tornou uma das favoritas, unindo sabor marcante e tranquilidade por saber que não compromete a saúde.
“O sabor, que é diferente de um produto comercial de grande escala, me chamou muito a atenção. Eu adoro isso porque tenho a impressão que estou consumindo menos quantidade, mas mais qualidade. Já me tornei cliente fiel, já sei onde tem disponível para poder comprar sempre e inclusive já conquistei mais uma consumidora, que é minha mãe. Além disso, quando posso, faço propaganda para outras pessoas também. Recomendo muito o produto”, comentou.
A servidora pública Aline Lima conheceu o chocolate Caroebe em uma degustação em um evento e ao experimentar, classificou o produto como diferente de todos os outros que já encontrou no mercado.
“Achei o sabor bem agradável. É marcante e suave ao mesmo tempo. Tem o toque artesanal faz toda diferença, pois você percebe que foi feito com bastante cuidado e carinho. Em nada lembra os industrializados de grandes marcas”, comentou.
Além do quesito gosto, a servidora afirma que compraria novamente o produto por reconhecer todo o valor agregado que ele possui. “É um produto feito com insumos locais, o que garante renda e valorização para os produtores da região. Pensar em processos sustentáveis mostra a preocupação de quem faz o chocolate, vislumbrando principalmente a preocupação com o meio ambiente, e valorizando o pequeno e médio produtor”, declarou.
E é por casos como esses, de chocólatras, além de consumidores e consumidoras eventuais, que apreciam trabalhos de qualidade, que em um dos pontos de venda, a equipe já atua inclusive fazendo estoque do produto para o atendimento da demanda.
O empreendedor Gabriel Borges, que foi um dos primeiros a disponibilizar o produto no cenário do café boavistense, avalia o chocolate Caroebe como revendedor e consumidor, e afirma que se trata de um produto de alta qualidade e receptividade por parte da clientela.
“No 70% cacau, você come e sente notas sensoriais, como se fosse um café. Não sente só açúcar, é possível sentir notas de banana. Parece um doce de banana, algumas vezes. É um produto excelente e teve rápida aceitação. Assim que disponibilizamos para venda, no dia seguinte já não tinha mais nenhuma barrinha. E depois que começamos a divulgar, a média de saída passou para cinco a seis barras ao dia. Hoje a gente já está pedindo 20 unidades de cada para venda, porque sai muito, é sensacional”, relata, informando que com a viagem já programada do fornecedor, a cafeteria deverá aumentar o estoque para o período de pausa na produção.

Foto: Marcos Borges
A aceitação é confirmada em outro ponto de venda do Caroebe. Segundo a empreendedora Gabriela Costa, uma das proprietárias de outra cafeteria da Capital, clientes do local compram o produto pela a história e proposta que oferece. “As pessoas, ao saberem da história, ficam muito interessadas e acabam comprando. E depois voltam para levar mais. Normalmente quem leva, recomenda. O chocolate vende bem porque carrega um sentido, uma identidade”, avaliou.
Além dos valores que carrega, a empresária chama atenção para outras qualidades do Caroebe: “Ele é um chocolate rústico, um ‘chocolate de verdade’, livre de componentes químicos e com sabor autêntico. Depois que você prova, percebe que passou a vida toda comendo algo que te disseram que era chocolate, mas não era”, observou.
Assim, para além da boa aceitação no mercado local, ela diz enxergar no chocolate Caroebe uma resposta a um desejo por produtos genuínos, que fujam do padrão. “Acho que faltam mais produtos assim, artesanais, que valorizem o que é regional. E nossa cafeteria, como um espaço de afirmação da identidade amazônica e valorização da produção local, não deixaria de oferecer esse chocolate roraimense para a clientela. Quando o Imbrozio apresentou o projeto, ficamos super interessadas. Afinal, entendemos ser uma excelente maneira de valorizar o que é da terra”, declarou.
SUCESSO ARTESANAL – O potencial de comercialização do chocolate tipo bean-to-bar já foi registrado em 2021 pela Pesquisa Mercado de Chocolates – Produção bean to bar e tree to bar, realizada em parceria pelas equipes do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e da ACCB (Associação do Chocolate do Cacau à Barra).
Conforme as análises feitas a partir dos dados levantados com fabricantes do chocolate, começando em pequena escala, com base na rastreabilidade e na relação direta com o produtor e a produtora, o setor de Bean to Bar vem conquistando cada vez mais paladares e mostrando uma trajetória de crescimento resiliente, construindo reputação, baseada em um perfil reforça a escala de produção artesanal, com 78% faturando até R$ 81 mil em 2020, o que indica a predominância de microempreendedores individuais.
A pesquisa, que é a mais recente sobre a atividade, registrou ainda que apesar da crise de 2020, 42% das empresas bean-to-bar registraram faturamento melhor do que em 2019. Em 2021, 42% estavam apresentando lucro.
Já, para o setor Tree to bar, em 2020, 55% dos empreendimentos registraram faturamento melhor do que em 2019, um percentual superior aos 42% dos bean to bar. Em 2021, o tree to bar demonstrou uma facilidade ligeiramente maior em apresentar lucro (49% vs. 42% do bean to bar). E assim como no bean to bar, há uma predominância de microempreendedores(as) individuais também no setor tree to bar, com 79% faturando até R$ 81 mil em 2020.
Cacau direto do pé

Dentro do conceito de chocolate bean-to-bar adotado pelo pesquisador Reinaldo Imbrozio para a fabricação do chocolate Caroebe, há alguns pilares que devem ser seguidos, segundo indicações da ACCB, que vão desde a principal matéria prima, o cacau, até sugestões de conduta dentro da sustentabilidade do processo:
-O cacau é de origem conhecida e de acordo com a responsabilidade social e ambiental;
-As amêndoas de cacau passam por protocolo controlado de beneficiamento (cacau de alto padrão);
-O preço do quilo de cacau é definido pelo produtor de cacau e não pelo comprador ou mercado de commodity (produto padronizado comercializado em larga escala, como soja ou cacau);
-As negociações diretas entre produtores de cacau e de chocolate são transparentes.
Nesses pilares, Imbrozio buscou junto a especialistas da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) indicação de produtores que pudessem atender ao que buscava realizar com o projeto e reencontrou o antigo companheiro dos conselhos e comitês de debates ambientais, o produtor Juares Pereira, unindo o famoso “útil ao agradável”, pois já era alguém confiável para o trabalho, com quem passou a contar na nova empreitada.
“Sem saber que se tratava de alguém que eu já conhecia, fui até o Caroebe em busca de um fornecedor das amêndoas para o meu projeto, e me deparei com Juares. Melhor impossível. Estabelecemos essa parceria e hoje ele é meu fornecedor”, relatou.

Também na produção de cacau para o chamado chocolate bean-to-bar alguns princípios de sustentabilidade também precisam ser seguidos, como o respeito absoluto à biodiversidade local priorizando cacau orgânico, biodinâmico (que segue princípios orgânicos e de respeito ao ciclo natural da terra), selvagem ou em sistema Cabruca (cacau é plantado sob a sombra de árvores nativas, preservando parte da vegetação original), o que não invalida a origem de cacau a pleno sol.
Segundo Imbrozio, apesar de nem todos os produtores em Caroebe adotarem práticas sustentáveis, Pereira, com quem fechou parceria, se destaca pelo cuidado com a lavoura e pelo interesse dedicado à busca por mais conhecimentos, além do trabalho voltado para as diferentes variedades de cacau que planta. “Ele inclusive me informou que está trabalhando até com atividades voltadas para a viabilização de uma variedade de cacau branco em Roraima”, comentou.
Conforme informações da ACCB, só é considerado chocolate branco bean-to-bar aquele que tem a origem do cacau de onde foi extraído a manteiga, oficialmente comprovada e registrada em embalagem e/ou site e/ou mídias sociais.
O cultivo que une produtividade, conservação ambiental e valor agregado
Buscamos Juares Pereira para entender o chocolate roraimense, mais precisamente, o chocolate Caroebe, desde a origem e descobrimos que o agricultor familiar e fornecedor do cacau, cultiva muito mais do que frutos de qualidade. Ele atua com um modelo de produção que une tradição, sustentabilidade e inovação social.
Tocantinense, Pereira chegou a Roraima em 1987 e teve o primeiro contato com a lavoura de cacau ajudando famílias migrantes de Rondônia, que buscavam recomeçar após a devastação causada pela praga vassoura-de-bruxa (fungo que ataca as plantas de cacau e prejudica a produção) no estado de onde vieram.
Décadas depois, mesmo tendo visto as primeiras tentativas de cultivo fracassarem pela falta de assistência técnica junto às famílias migrantes, mas com mais experiência e conhecimento técnico, Pereira resolveu investir na cultura, convencido de que o cacau pode ser um vetor de equilíbrio ambiental, geração de renda e fortalecimento comunitário.

Consciente de que o enfrentamento à praga conhecida como vassoura-de-bruxa, é um desafio constante, o agricultor investe há 10 anos em variedades resistentes e em um modelo de plantio consorciado, capaz de equilibrar produtividade e preservação ambiental. A meta é transformar gradualmente a plantação em roça orgânica, evitando o uso excessivo de químicos que, para ele, marcaram negativamente a agricultura no passado.
Pereira destaca que o modelo agrícola adotado historicamente no sul de Roraima, baseado em práticas itinerantes e uso intensivo de químicos, não se adequa à Amazônia. O objetivo dele agora é conduzir gradualmente a lavoura para padrões orgânicos, reduzindo insumos químicos e valorizando o manejo sustentável.
“O que me motivou a apostar nessa cadeia produtiva foi o resultado de várias avaliações que fizemos sobre o desenvolvimento territorial sul. A questão do microclima, da convivência com um desenvolvimento mais sustentável, porque a forma como fomos assentados e distribuídos para fazer agricultura no território sul de Roraima foi uma forma muito irresponsável. A gente vinha praticando a agricultura, mesmo em regime de economia familiar, de forma itinerante e predatória. Um modelo que não se encaixa para a região amazônica. Então, nós que temos conhecimentos hoje da realidade com relação às alterações climáticas, a gente tem que procurar fazer a coisa correta”, ressaltou.
MODELO DE PRODUÇÃO – O cultivo de Juares Pereira adota a meia sombra natural e está migrando para sistemas consorciados, nos quais o cacau divide espaço com espécies que não competem por luz e nutrientes. Essa estratégia, discutida com profissionais da Embrapa e de engenharia florestal, combina lógica botânica e viabilidade econômica, permitindo que produtores atendam exigências de mercado e metas de produtividade sem abrir mão da sustentabilidade.
Ele também vê na cacauicultura um instrumento de recuperação de áreas degradadas, inspirando-se em polos como Medicilândia (PA), onde a lavoura ajudou a reverter passivos ambientais e elevar o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e em Jaru (RO), que uniu capacitação e processamento local com a criação de uma “Escolinha do Cacau” para filhos e filhas de famílias que atuam na área.
“O que tá salvando aquela região, que elevou o IDH e supriu esse déficit foi a expansão da cacau-cultura. Então a gente já tem essa cultura como exemplo de superação da pobreza. E quando eu falo de superação, eu falo em todos os sentidos, desde a recuperação de áreas degradadas, enriquecimento floresta, o convívio com a fauna e flora, até a geração de emprego e renda, e a questão do PIB [Produto Interno Bruto] regional, porque a gente paga imposto para exportar e a gente paga também imposto para importar os insumos. Então ele, na cadeia do cacau é sem dúvida alguma um item indispensável nessa projeção para o desenvolvimento sustentável e equilíbrio econômico e social”, analisou.

INTEGRALIDADE E VALOR – Para Pereira, aproveitar todo o potencial do cacau é essencial. A polpa, a amêndoa e até a casca têm destino produtivo. Isso porque esta última pode virar adubo rico em potássio ou ração animal, uma experiência já adotada com sucesso no Pará, onde substitui até 80% da ração convencional, segundo ele.
Além da venda das amêndoas para o chocolate Caroebe, ele acredita que o futuro da cadeia está em agregar valor no próprio território, com produtos derivados, turismo rural e identidade regional forte.
Pereira integra um grupo de cerca 600 famílias que, com parcerias com instituições como o Sebrae e Embrapa, atuam no fortalecimento da cadeia produtiva do cacau em Roraima.
“Acredito que essa cadeia produtiva dará certo a partir do momento que a gente tiver organizado ao ponto de negociar, em todos os sentidos, e com escala comercial. E para isso, a gente precisa envolver não só a família, mas toda a comunidade. Nós estamos expandindo para fora do polo, estamos indo para todo o estado. Nós temos referenciais hoje no município de Amajari, no Samaúma, que é município de Mucajaí, no Alto Alegre, com o Taiano, em Caracaraí, Iracema, na região de Campos Novos, e no Cantá. Então, fora do território sul, nós já temos vários contatos, até Boa Vista, onde há alguns experimentos no Lavrado. Os conhecimentos têm que ser colocados à disposição de todos”, relatou.
Ele acredita que o segredo está na união e na visão de longo prazo. “O cacau é um tripé de sustentabilidade, que une o econômico, social e ambiental, e pode colocar Roraima entre os melhores produtores do mundo. Acho que vamos começar inclusive a disputar com o Equador”, projetou.
O nome “Caroebe”, que batiza o chocolate para o qual Pereira fornece as amêndoas, é visto pelo produtor como ativo cultural e mercadológico, capaz de transmitir autenticidade e reforçar a ligação entre a produção e a história local.
“Essa coisa da nomenclatura, eu acho que ela faz parte da estratégia de negócios. O nome “Caroebe” é de origem indígena. Eu conversava com o Reinaldo aqui sobre essa questão, porque as pessoas sabem que o mundo inteiro tem simpatia por alguma coisa que seja bem natural, bem compatível com alguma realidade local. E essa coisa dos indígenas, ela está muito ligada ao despertar dessa coisa da naturalidade do nosso lugar. E também faz uma ponte com essa barra. Então, não tem como não ficar orgulhoso com esse nome e com esse produto. Como não ter orgulho pelo resultado não só do meu cacau, que está sendo utilizado para a produção do Caroebe, como também pelo indígena, também pelo da Keully, produtora que já está colocando no mercado um novo chocolate também, e por todos aqui?”, questionou, se declarando otimista com as perspectivas que vêm se abrindo pelas bandas do Sul do estado.
Polo com potencial para centro integrado de produção

Análises do Diagnóstico da Cacauicultura no sul de Roraima demonstram que o futuro do setor no estado é promissor. A publicação lançada no início deste ano de 2025, indica que a cultura do cacau, alinhada a práticas sustentáveis e ao desenvolvimento de produtos de maior valor agregado, pode se tornar um motor de desenvolvimento econômico e social para a região.

(Imagem/Reprodução do Diagnóstico da Cacauicultura no sul de Roraima)
Conforme os dados do documento, os municípios do sul de Roraima (Caroebe inicialmente, com posterior expansão para São João da Baliza, São Luiz do Anauá e Rorainópolis) apresentaram um dos maiores potenciais para o cultivo de cacau no país, com frutos que demonstraram características superiores à média nacional, como altos índices de produtividade e rentabilidade, ultrapassando até mesmo o monocultivo (cultivo de uma única espécie vegetal, geralmente em larga escala), especialmente quando inserido em sistemas integrados de produção.
O cientista Reinaldo Imbrozio também analisa com otimismo as perspectivas da atividade no Estado com o alimento derivado do cacau. Ele destaca o nível de exportação do fruto, que segundo levantamentos institucionais, chega a uma média de 300 toneladas ao ano no Brasil, se mostrando rentável para pequenos produtores e produtoras, pelas condições que o mercado vem oferecendo.
“Recentemente houve uma reunião e uma oficina com grupo técnico e agricultores no município do Caroebe, visando transformar aquele polo de produção de frutos para um centro de integração de produtos, baseados não apenas nas amêndoas de cacau, mas também no mel, na farinha e na manteiga de cacau. Eu tenho a impressão que vai crescer muito nos próximos anos. Está dando apenas os primeiros passos, saindo da típica agricultura, do que hoje é apenas o plantio e a colheita, para produtos semi-industrializados e industrializados. Acho tudo isso fantástico e acredito que é só o ponto de partida”, prospectou.
Conforme dados do Diagnóstico da Cacauicultura, elaborado pela equipe da Seadi (Secretaria de Estado da Agricultura, Desenvolvimento e Inovação), o polo cacaueiro de Roraima é formado por 150 produtores e produtoras, e uma área total de 366,62 hectares no sul do estado. A atividade que começou em 2015 e foi expandida de maneira significativa a partir de 2018, atualmente, é apontada uma “excelente oportunidade de desenvolvimento para a região amazônica”, sendo executada em SAFs (Sistemas Agroflorestais), segundo preconizado pela Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira).
Iniciativa que incorpora à bioeconomia local

O projeto desenvolvido por Reinaldo Imbrozio, que já virou produto em comercialização, o chocolate Caroebe, embora não seja visto por ele como um empreendimento no sentido tradicional, nem como um trabalho científico, apesar das características de pesquisa e desenvolvimento, mas sim como uma atividade pessoal, é pautado pela busca da rusticidade e sabor autêntico, em contraste com os chocolates industrializados.
Com isso, o pesquisador se propôs a atuar no conceito de bioeconomia, utilizando recursos locais e valorizando a cultura regional, desde a escolha do nome para o chocolate, batizado de Caroebe em homenagem ao município de origem do cacau utilizado para a fabricação do chocolate. Junto a isso, ele criou a marca “Casa do Imbrozio”, como fator de confiabilidade para as ações de marketing.
“Eu escolhi tentar o caminho da chamada bioeconomia, mesmo não sendo minha área específica de estudo, mas vou tentar fazer isso, que é um trabalho em uma pequeníssima escala”, informou ao destacar onde acredita que a área de atuação se encaixa mais economicamente.

PERSPECTIVAS PROMISSORAS – E ao que tudo indica, Imbrozio está no caminho certo, pois o setor da economia de base florestal tem se mostrado cada vez mais relevante no Brasil. Em 2020, segundo informações registradas na publicação Bioeconomia da Floresta – A conjuntura da produção florestal não madeireira no Brasil (2ª Edição), só a região Norte foi responsável por quase metade (43%) do valor total da produção florestal não madeireira do país, seguida pela região Sul (31%) e Nordeste (22%).
Ainda conforme a publicação, a área da Bioeconomia apresenta um “grande potencial para o desenvolvimento do país, com inovação e inclusão social”. No ano de 2020, foi estimado que R$ 1,9 bilhão foram movimentados com a comercialização de produtos não madeireiros da floresta.
Dentre esses produtos está o cacau, que se cultivado com utilização de sistemas agroflorestais, ou seja, combinam o cultivo do fruto com outras árvores e plantas, o que ajuda a proteger a biodiversidade, restaurar áreas degradadas e promover a sustentabilidade ambiental, pode apresentar segundo esses estudos, alto potencial de sustentabilidade econômica também.
Especificamente para Roraima, é possível verificar no diagnóstico feito por especialistas do governo estadual, que o cultivo do cacau, por meio da ênfase na agregação de valor, uso sustentável de recursos e diversificação de produtos, ou seja, atividades dentro da bioeconomia, apresenta um dos cenários mais promissores para o desenvolvimento do Estado.
Inovação com gosto de floresta

Foto: Ascom/IFRR
A trajetória do chocolate Caroebe também vem chamando a atenção de instituições ligadas à pesquisa e à inovação em Roraima. Para a diretora da Agif (Agência de Inovação) do IFRR (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima), professora Karla Santana, a iniciativa do pesquisador Reinaldo Imbrozio é um exemplo claro de como inovação não depende, necessariamente, de tecnologia de ponta, mas sim de criatividade, conhecimento aplicado e valorização dos saberes locais.
“No caso do chocolate Caroebe, a inovação parte justamente da incorporação de ingredientes nativos, do uso de técnicas artesanais e da manutenção da identidade regional do produto. Isso é uma forma potente de inovar”, analisa a diretora.
Ela destaca as técnicas de preparo alternativas do chocolate roraimense, com baixo uso de aditivos, respeito ao sistema agroflorestal e uma proposta estética que comunica o território de origem. O resultado, diz Santana, “é um produto mais funcional, sustentável e com potencial para inserção em novos mercados”.
A diretora ressalta que o projeto também se alinha a uma tendência crescente: a da bioeconomia, um modelo de produção baseado no uso de recursos biológicos renováveis, com foco na conservação ambiental e na valorização da biodiversidade. “Projetos como o Caroebe criam oportunidades reais para as comunidades locais, agregando valor à produção e promovendo geração de renda a partir de práticas sustentáveis”, afirma.
Além disso, Santana destaca também o caráter educativo e social da experiência. “Quando pesquisadores, agricultores e pequenos empreendedores trabalham juntos, o que se promove é mais do que um novo produto: é uma troca de saberes que fortalece a agricultura familiar, valoriza os conhecimentos fundamentados na experiência e aproxima a ciência da realidade do campo”, aponta.
O IFRR, por meio da Agif e da incubadora de negócios (apoio técnico, gerencial e administrativo), a Koneka (fazer ou construir na língua macuxi), já atua em diversas frentes voltadas à bioeconomia. Professores e professoras, além de estudantes dos campi do interior, desenvolvem pesquisas e protótipos de produtos que aproveitam os insumos da floresta de forma inovadora.
Para Santana, experiências como o chocolate Caroebe podem se multiplicar se houver políticas públicas integradas, incentivos à formação empreendedora e parcerias entre instituições como o IFRR e a Embrapa. “O Caroebe não é apenas um chocolate. É uma vitrine do que é possível fazer quando ciência, identidade e território se encontram”, afirmou.
Agregação de valor e replicação

Mesmo sem a intenção empreendedora, o pesquisador Reinaldo Imbrozio admite que a nova atividade que vem desenvolvendo pode servir de “vitrine” e “porta” para o polo cacaueiro de Caroebe, incentivando outros produtores a buscar qualificação e agregação de valor.
“Acredito que pode sim ser um fator motivador porque eles viram que está dando certo. Que funciona. Eu acho que eles precisam cada vez mais se qualificar. Então, quanto maior qualificação tiver, maior empreendedorismo eles vão ter”, observou.
A pouca qualificação de agricultores e agricultoras atuantes no polo é identificada no documento Diagnóstico da Cacauicultura como gargalo para a melhoria do setor, sendo a busca por capacitações e aperfeiçoamentos indicadas para agregação de valor, a expansão da produção, produtividade e conquista de novos mercados.
Sensível à situação e sendo totalmente a favor do compartilhamento de conhecimentos, Imbrozio afirma estar totalmente disponível para contribuir com ações que possam ajudar às pessoas que têm interesse em se aperfeiçoar na área de produtos do cacau.
Ele acredita que a experiência que conduziu com a criação desse novo produto é totalmente replicável e que os conhecimentos que adquiriu a partir dela são para serem disponibilizados também para a construção de mais e novos conhecimentos. “Eu sou totalmente a favor de compartilhar conhecimentos. Quanto mais, melhor. É só me chamar que estou à disposição”, declarou.
No Diagnóstico da Cacauicultura é informado ainda que atualmente em Roraima, comercializa-se apenas as amêndoas secas, desprezando outras alternativas de aproveitamento mais integrado dos recursos existentes, como a produção de polpa, geleia e outros subprodutos. Isso indica um vasto potencial inexplorado, que poderia gerar novos produtos e processos de valor.
Caroebe como vitrine de um novo empreendedorismo amazônico

Foto: Ascom/Sebrae-RR
O gestor do projeto no Sebrae, Rodrigo Rosa, destaca que a iniciativa está ainda no primeiro ano de implantação, com ações realizadas em seis municípios e o envolvimento direto de 25 produtores e produtoras. “O surgimento de empreendimentos como o Caroebe contribui diretamente para inserir Roraima no mapa do cacau do Brasil”, observou.
Segundo ele, a equipe técnica do Sebrae trabalha para que a produção roraimense vá além da venda de amêndoas in natura. A meta é incentivar o modelo tree to bar com uso de práticas agroflorestais, capacitação de famílias agricultoras e, futuramente, a instalação de uma biofábrica de chocolate móvel com energia solar, como já ocorre em estados como Pará e Rondônia.
A formação empreendedora é outra frente prioritária. Por meio de cursos como o Negócio Certo Rural e oficinas sobre aproveitamento integral do cacau, a equipe do projeto no Sebrae busca engajar não só os agricultores e agriculturas, mas também as famílias dessas pessoas, para garantir a sucessão rural com visão de futuro.
“Acreditamos que, com a consolidação do polo cacaueiro e a oferta de amêndoas de qualidade, surgirão naturalmente novos empreendimentos voltados ao mercado de chocolates artesanais”, projetou o gestor.
Entre os empreendimentos em fase inicial, Rosa destaca o trabalho da produtora Keully Freitas com o pai Nicanô Freitas, também de Caroebe, que começaram a fabricar o próprio chocolate artesanal e já criaram até uma marca. Ainda em fase experimental, o empreendimento deverá receber consultoria técnica de equipe do Sebrae nos próximos meses para iniciar a comercialização no mercado local.
Esse movimento mostra que o chocolate Caroebe não está sozinho. O sul de Roraima começa a desenhar uma nova rota para o cacau amazônico, onde o conhecimento técnico, os sabores da floresta e o empreendedorismo familiar se encontram para a produção de barras cheias de raízes e frutos.
DA ÁRVORE A BARRA – Doce caminho para a transformação social

Enquanto o chocolate Caroebe da Casa Imbrozio já desperta o paladar dos consumidores como um produto final com espaço conquistado nas prateleiras das cafeterias de Boa Vista, a jovem produtora Keully Freitas e o pai Nicanô Freitas, caminham em uma jornada paralela, pavimentada pelo propósito da coletividade e visão de futuro.
Ainda em processo experimental, a família Freitas, que iniciou a lavoura de cacau em 2019, está trabalhando em uma outra proposta de chocolate regional tipo tree to bar, que vem do processo do cultivo da árvore à barra do chocolate.

Inicialmente, motivada por atender ao gosto do pai, que é diabético e fã de chocolate, Keully Freitas, começou buscar formas de viabilizar uma barra de chocolate que tivesse qualidade que servisse ao cliente-inspiração que ela tinha. A partir daí, começou a testar receitas caseiras e a realizar degustações para medir a aceitação do público. E a ideia de transformar a plantação em chocolate, com o gostinho das raízes do território onde vive para o público, nasceu.

“Era difícil encontrar chocolate que tivesse o teor acima de 80% cacau, que era o que eu buscava para meu pai. Então resolvi eu mesma produzir para ele. Depois, a vontade de empreender, curiosidade e amor pela terra. Eu sou filha de agricultor. Eu amo o meu município. Eu amo morar onde eu moro, no meio do mato, na natureza. E o que mais me motivou é o potencial que tem aqui. Eu enxergo no cacau a oportunidade para as famílias se desenvolverem”, relatou.
Na fase experimental do chocolate que batizou e registrou como “Roraimí”, Freitas agora está ajustando receitas e métodos para chegar ao produto final que deseja: um chocolate de alta qualidade, com sabor que traduza o território onde é produzido.
Em 2023 ela comprou o primeiro equipamento para processar as amêndoas do cacau e já testou diferentes formulações, explorando ingredientes amazônicos como castanha-do-brasil, açaí, cupuaçu, castanha de caju e café, criando combinações que valorizam o que é regional e estimulam um paladar mais conectado à floresta.
Esse cuidado vai além do sabor. A produtora defende que, antes de entrar no mercado, é essencial garantir boas práticas de manipulação, desde a colheita e fermentação do cacau até a produção do chocolate, trabalhando para obter o selo artesanal, que certifica a procedência e a segurança do alimento. Para ela, a profissionalização é parte fundamental para consolidar o setor:
“Eu também sou servidora pública. Sou técnica agropecuária e atuo como agente de fiscalização. Então, eu já quero seguir a questão da produção de chocolate da maneira adequada. É o que eu sempre falo para os nossos produtores: Gente, nós precisamos do selo artesanal. Antes de tudo, trabalhar a questão de boas práticas de manipulação do alimento, que nós queremos comercializar. Queremos colocar o produto que a gente produz na mesa de outras famílias”, destacou.
Com essa visão, ela afirma ainda que não quer ser só mais uma pessoa vendendo chocolate. Quer ver a comunidade da qual faz parte ganhando junto, pois acredita que o verdadeiro potencial do cacau está no coletivo e idealiza uma agroindústria comunitária, já pensando inclusive em uma futura cooperativa para que outras mulheres e famílias da região para que também possam produzir e comercializar chocolates com identidade amazônica.
Mais do que um negócio, Keully Freitas vê no chocolate uma oportunidade de colocar Caroebe no mapa gastronômico e turístico, e sonha em criar uma “rota do cacau” e fazer com que o produto local seja encontrado em cafeterias, supermercados e até na merenda escolar em Roraima.
“Quero que as pessoas provem e reconheçam o sabor verdadeiro do nosso cacau, que sintam o orgulho de consumir algo que nasce aqui e carrega a essência da Amazônia”, declarou.
CAMINHOS – A meta da produtora Keully Freitas é entrar no mercado de forma permanente, consolidando não apenas a produção de chocolate, mas também a cultura do cacau como marca registrada da região. E para isso, reconhece a importância do chocolate Caroebe, idealizado por Reinaldo Imbrozio, que, segundo ela, mesmo não sendo produtor, conseguiu despertar a curiosidade do público para o produto feito em Roraima.
Apesar de adotar uma modalidade de chocolate diferente da dela (Caroebe bean-to-bar e Roraimí tree to bar) e foco de produção também, pois a produtora se organiza para uma comercialização coletiva, ela vê a iniciativa de Imbrozio como aliada para ampliar a visibilidade do setor.
“O nosso modelo é mais demorado, porque não quero ser apenas uma comercializadora individual. Queremos que todos falem a mesma língua, entendam o valor da mão de obra que oferecem e caminhem juntos para que o projeto dê certo. Mas desde já é gratificante ver o seu Reinaldo Imbrozio produzindo e colocando um chocolate no mercado”, afirma.
RORAIMÍ – A marca que a produtora Keully Freitas criou, Roraimí Chocolates, já está em processo de registro e será transferida para uma associação, simbolizando o compromisso com a coletividade.
Com apoio do Sebrae, que ela define como “um divisor de águas”, atualmente a produtora tem participado de capacitações, oficinas e feiras, e leva a experiência que já adquiriu a outras localidades do estado, inspirando mulheres produtoras com receitas que misturam ingredientes regionais. “O nosso chocolate quer provocar sensações. Que quem provar pense: ‘Nunca comi um chocolate de verdade’”, aspira.