Grupo de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia defende monitoramento e ação conjunta para reduzir riscos
Por Sheneville Araújo
O clima tem despertado preocupação cada vez maior, especialmente na Amazônia, onde secas e queimadas exigem atenção constante, até porque alterações ambientais e climáticas nessa parte do país podem repercutir muito além dos limites da região. Nesse cenário, profissionais da pesquisa têm buscado compreender melhor como o fogo se comporta e quais áreas podem ficar mais vulneráveis. Em Roraima, uma dessas análises mostra que o fogo não se distribui da mesma forma todos os anos. Quando o fenômeno climático El Niño entra em cena, uma área que normalmente registra poucas queimadas passa a chamar atenção no mapa.
Um boletim, produzido por profissionais do Núcleo de Roraima do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), divulgado nesta última terça-feira, dia 1º de setembro, mostra que o El Niño não faz desaparecer o padrão habitual dos incêndios em Roraima, mas acrescenta ao mapa uma região de forte concentração do fogo.
Conforme o estudo, em anos sem influência do fenômeno, as queimadas preocupam principalmente nas áreas de Lavrado e, nas áreas florestais, na faixa entre Rorainópolis e Entre Rios. Já nos anos de El Niño, uma região na fronteira leste da Terra Indígena Yanomami passa a se destacar fortemente.
No recorte de aproximadamente 6.670 quilômetros quadrados traçado entre o início da Perimetral Norte, Vila Apiaú, Vila Nova, Rio Mucajaí e a fronteira leste da Terra Indígena Yanomami, a média de área queimada nos sete anos de El Niño foi 20 vezes maior que nos demais anos.
Segundo o mestre em Ciências Ambientais e um dos pesquisadores responsáveis pela análise no Inpa, Arthur Citó, a área pesquisada foi delimitada a partir da observação de um padrão que chamou a atenção do grupo.
“Ali, os registros indicavam pouca área queimada em anos considerados normais e um aumento expressivo nos anos associados ao El Niño. Por se tratar de uma análise preliminar, o recorte foi utilizado para exemplificar esse comportamento”, observou.
As previsões registradas no boletim indicam que este El Niño, formado em 2026, tem 90% de chance de ser um evento muito forte e 69% de atingir a maior temperatura desde os primeiros eventos registrados, em 1950.
“Para Roraima, o cenário mais provável é de seca intensa, capaz de reduzir também a umidade no interior das áreas florestais. Essa condição aumenta o risco de o fogo avançar para dentro da floresta e atingir grandes proporções. Se essa sequência de eventos se confirmar, outra consequência pode ser a elevada emissão de fumaça e o agravamento da poluição do ar no estado”, explicou Citó.
Na análise preliminar de dados de 1997 a 2025, o grupo responsável pela pesquisa comparou a ocorrência de áreas queimadas em anos associados ao El Niño com os demais anos do período.
Citó explicou que para chegar ao resultado, os 29 anos analisados foram separados em dois grupos. De um lado ficaram os sete anos associados à fase madura de eventos de El Niño: 1998, 2003, 2007, 2010, 2016, 2019 e 2024. Do outro, os 22 anos restantes, considerados normais para efeito da comparação. Foi calculada a média simples da área queimada em cada grupo e, então, feita a comparação entre elas. A média dos anos de El Niño ficou 20 vezes acima da registrada nos demais anos.
Mas, conforme a análise do pesquisador, isso não significa, porém, que em todo ano de El Niño a região queime exatamente 20 vezes mais, já que os anos com as maiores extensões queimadas pesam bastante no resultado da média.
“Os anos com as maiores extensões queimadas, especialmente 1998, 2019 e 2024, têm peso importante no resultado da média de 20 vezes, o que significa que o número não deve ser interpretado como uma proporção que se repete da mesma forma em todo evento de El Niño”, comentou.
A mudança no mapa do fogo

Segundo o estudo do Inpa, em anos sem influência direta do El Niño, as áreas queimadas e os focos de calor aparecem principalmente no lavrado e avançam pelo centro-sul de Roraima, acompanhando as BRs 432, 174 e 210. Nessas regiões, o fogo segue áreas de desmatamento abertas a partir das rodovias e de seus acessos laterais, formando, quando vistas no mapa, um desenho semelhante a uma espinha de peixe.
Já nos anos de El Niño, a distribuição muda. O grupo de pesquisa identificou uma alta concentração de incêndios justamente na fronteira leste da Terra Indígena Yanomami, na região compreendida entre a Perimetral Norte, Vila Apiaú, Vila Nova e Rio Mucajaí. A área estudada também alcança a parte sul da Floresta Nacional de Roraima (Flona Roraima).

Entre 1997 e 2025, sete anos foram associados à fase considerada madura do El Niño: 1998, 2003, 2007, 2010, 2016, 2019 e 2024. No gráfico, esses anos aparecem em vermelho, permitindo comparar a área queimada com a registrada nos demais anos, representados em preto.
E há outro dado que dimensiona a concentração, indicando que 85% de toda a área queimada registrada na região durante os 29 anos analisados ocorreu justamente nesses sete anos associados ao fenômeno.
Então o El Niño causa os incêndios?

Não é tão simples assim. O El Niño não precisa ser entendido como o fósforo que acende o fogo, mas como um fenômeno que pode tornar a floresta muito mais vulnerável à propagação.
O que é possível verificar no estudo divulgado no boletim é um padrão associado aos anos de El Niño, o que aponta para a maior vulnerabilidade da floresta nesses períodos.
Arthur Citó explica que quando a estiagem se intensifica, a floresta perde umidade. E é justamente essa umidade que normalmente ajuda a dificultar o avanço das queimadas. “Com essa barreira natural enfraquecida, o fogo encontra condições mais favoráveis para se espalhar”, comentou.
Além disso, a floresta que recebe esse fogo também mudou. A seca não encontra hoje exatamente a mesma paisagem de décadas atrás. Em 1985, o total de 99% da área analisada era coberta por floresta. Mas, 40 anos depois, em 2025, 24% da cobertura florestal original já havia sido perdida, segundo dados do MapBiomas (rede colaborativa multi-institucional que produz mapas anuais e dados sobre a cobertura e o uso da terra no Brasil) utilizados no boletim.
A análise preliminar, porém, ainda não permite medir separadamente quanto desse padrão está relacionado ao El Niño e quanto pode estar associado às transformações no uso da terra. Segundo Citó, uma das possibilidades para aprofundar a investigação seria comparar somente áreas de floresta nunca alteradas, verificando quanto queimaram em anos com e sem o fenômeno.
Os impactos não ficam só na floresta

Em Roraima, sentiremos os maiores efeitos deste El Niño no primeiro semestre de 2027, período que exige atenção e preparo. Indicamos que a resposta não deve ser uma política de proibição absoluta do uso do fogo, já que isso tem se mostrado ineficaz, mas um acompanhamento mais próximo da região para diminuir os impactos desse nas populações locais e no meio ambiente
O risco apontado por profissionais do Inpa não parte apenas de uma projeção. Durante o El Niño de 2023-2024, Roraima enfrentou uma seca severa acompanhada por grandes incêndios, fumaça, seca de rios e igarapés, com relatos de comunidades do interior atingidas por esses efeitos, incluindo indígenas. Na ocasião, pesquisadores e pesquisadoras já relacionavam a combinação de pouca chuva, baixa umidade da vegetação e ventos à rápida propagação dos incêndios.
Em fevereiro de 2024, durante o El Niño anterior, uma imagem do satélite Sentinel-2 registrou vários incêndios na região analisada e uma espessa pluma de fumaça sendo deslocada pelo vento para dentro da Terra Indígena Yanomami e chegando ao estado do Amazonas.
O episódio não significa que 2024 se repetirá, mas ajuda a visualizar por que profissionais de pesquisas científicas consideram preocupante a combinação entre El Niño, seca e floresta com baixa umidade.
O estudo apresentado no boletim do Inpa, indica que a maior vulnerabilidade ao fogo também pode produzir consequências fora da área atingida pelas chamas. O documento chama a atenção para possíveis perdas na produção agropecuária e efeitos sobre a qualidade do ar de comunidades tradicionais atingidas pela fumaça.
Conforme o pesquisador Arthur Citó, apesar dos efeitos já estarem sendo sentidos esse ano, a preocupação maior é para o próximo ano, especificamente para o período mais seco no estado.
“Em Roraima, sentiremos os maiores efeitos deste El Niño no primeiro semestre de 2027, período que exige atenção e preparo. Indicamos que a resposta não deve ser uma política de proibição absoluta do uso do fogo, já que isso tem se mostrado ineficaz, mas um acompanhamento mais próximo da região para diminuir os impactos desse nas populações locais e no meio ambiente”, comentou.
O que pode ser feito?
Diante da improvável mudança no cenário previsto, a preparação antecipada ganha ainda mais importância. Além dos impactos ambientais e no setor produtivo, uma seca mais intensa e o avanço dos incêndios podem trazer prejuízos à saúde da população e aumentar os gastos públicos com ações de resposta, entre outras consequências. Nesse contexto, o mestre em Ciências Ambientais Arthur Citó reforça que o cenário exige ações de educação, preparação e combate aos incêndios antes do período mais crítico.
Segundo o pesquisador, algumas medidas podem ser adotadas ainda antes do período mais crítico. Entre elas estão a preparação integrada das áreas de saúde, com simulações para possíveis ocorrências relacionadas ao fogo e à fumaça; o monitoramento da quantidade e da qualidade da água durante a estiagem; e o acompanhamento de queimas prescritas e controladas, com apoio dos órgãos responsáveis.
Ele destaca também que outra frente importante é ampliar a divulgação dos índices de qualidade do ar de forma acessível à população, indicando também quais grupos precisam de mais cuidado nos períodos de maior poluição. A longo prazo, Citó aponta ainda a necessidade de investimento em pesquisa e educação para compreender e orientar o uso do fogo nas diferentes regiões de Roraima, além do incentivo a modelos de produção agroflorestal, que reduzam a necessidade de queimadas no preparo da terra, e a iniciativas coletivas de crédito de carbono ( certificado digital que representa a redução ou remoção de uma tonelada de dióxido de carbono), voltadas a pequenos e médios produtores e produtoras rurais. “Alternativas desse tipo já estão em construção em diferentes partes da Amazônia”, comentou.
O próprio boletim recomenda que o enfrentamento não seja baseado apenas na proibição do uso do fogo, mas em acompanhamento próximo das áreas de maior vulnerabilidade e atuação conjunta entre instituições públicas, produtores e produtoras rurais e povos indígenas.
Os resultados do estudo divulgado no boletim do Inpa ainda são preliminares e novas análises estão sendo realizadas pelo grupo responsável. Citó informou que outros boletins deverão aprofundar temas como seca, risco de incêndios florestais e poluição do ar.
Para além das análises que ainda serão aprofundadas, o primeiro boletim já deixa uma questão prática para Roraima: se os dados ajudam a mostrar onde o fogo tende a ganhar força durante um El Niño, o que será feito com essa informação antes da chegada do período de maior risco?

EL NIÑO – El Niño ocorre quando as águas da superfície do Oceano Pacífico, na faixa próxima à Linha do Equador, ficam mais quentes que o normal, principalmente nas porções central e leste. O fenômeno se repete de tempos em tempos, geralmente em intervalos de dois a sete anos, e costuma durar entre nove e 12 meses.
Em condições normais, os chamados ventos alísios, que são aqueles que sopram de leste para oeste na faixa próxima à Linha do Equador, ajudam a empurrar as águas mais quentes para o oeste do Oceano Pacífico. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem, e as águas mais quentes conseguem se espalhar mais para o centro e o leste do oceano.
Essa mudança interfere na circulação da atmosfera (camada de gases que envolve a Terra, mantida ao redor do planeta pela força da gravidade) e altera os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.
Dependendo da região, os períodos chuvosos podem se intensificar ou diminuir, alterando a quantidade e a distribuição das chuvas ao longo do ano. Além disso, eventos fortes de El Niño costumam elevar temporariamente a temperatura média global em alguns décimos de grau, contribuindo para recordes de calor.