Processos sustentáveis com beneficiamento de madeira em Roraima surgem como alternativas contra impacto ambiental

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No sul do Estado, um empreendimento vem se destacando com processos que utilizam apenas madeira legalizada e de sobras das serrarias

Por: Sheneville Araújo

Nas últimas décadas, o Brasil se consolidou como um dos principais países produtores e fornecedores globais de madeira tropical. Segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e da ITTO (Organização Internacional de Madeiras Tropicais), a Amazônia é a região que concentra a maior parte dessa produção, o que reforça o papel estratégico que desempenha na cadeia global da madeira.

Mas, apesar de normas técnicas da legislação ambiental brasileira estabelecerem que, de cada árvore derrubada, ao menos 35% do volume de madeira deveria ser efetivamente aproveitado nas serrarias, diferentes estudos de órgãos ambientais e universidades apontam que menos de um terço das toras retiradas da floresta amazônica se converte de fato em madeira serrada. Medições em serrarias demonstram um rendimento médio de 24,6%, ou seja, mais de 75% da matéria‑prima vira resíduo. 

Especificamente em Roraima, outros estudos mostram que apenas cerca de metade da madeira retirada da floresta se transforma em produto final. O restante vira resíduo, frequentemente acumulado em pátios de serrarias ou queimado, o que agrava a poluição do ar e aumenta as emissões de gases.

ILEGALIDADE – Paralelo a isso, o mercado legal enfrenta concorrência desleal da extração ilegal de madeira. Mapas do Simex (Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira) mostram que, entre agosto de 2021 e julho de 2022, 29% (487 hectares) do total de área explorada, ou seja, 1.671 hectares explorados em Roraima não possuíam autorização, com 64% dessas áreas localizadas em assentamentos rurais. Um levantamento anterior (2019–2020) apurou que 55% da exploração no estado foi ilegal, e que 95% da extração se concentrava em dois municípios (Rorainópolis e Amajari), sendo a exploração em Amajari totalmente não autorizada.

Em escala amazônica, os dados de 2023 indicam que a área com exploração ilegal aumentou 19% em um ano, passando de 106 mil para 126 mil hectares, enquanto a área autorizada caiu 17%. Especialistas chamam atenção para o fato de que a madeira ilegal desvaloriza o produto legal e prejudica empresas que investem em responsabilidade ambiental.

Além disso, pesquisas científicas indicam que a quantidade de dióxido de carbono, (CO₂) liberada durante a extração e o processamento da madeira pode variar muito, indo de cerca de 25 quilos a quase 20 toneladas de CO₂ para cada metro cúbico de madeira, dependendo de como a floresta é explorada, isso contribui para a intensificação do efeito estufa (processo natural de aquecimento térmico da Terra) e assim, para o agravamento da crise climática. 

Outro complicador, conforme os dados científicos, é a exploração da madeira sem planejamento, promovendo desperdício e grandes volumes de resíduos abandonados na floresta ou nas serrarias, o que gera emissões centenas de vezes maiores. O que indica que o reaproveitamento de sobras e resíduos ao longo da cadeia produtiva é uma forma de ajudar a reduzir esse impacto, ao evitar a queima ou a decomposição da madeira, processos que liberam grandes quantidades de CO₂ na atmosfera.

BUROCRACIA E CUSTOS – Além do desperdício e da ilegalidade, agentes do setor empresarial apontam entraves burocráticos e custos elevados para operar legalmente. Em audiência pública da Alerr (Assembleia Legislativa de Roraima) em setembro de 2025, produtores e produtoras rurais criticaram o alto custo da reposição florestal, estimado entre R$ 70 e R$ 80 por metro cúbico, um dos mais altos do país.

Pesquisas na área também apresentam observações de que obter licenças ambientais custa mais para empresas localizadas fora da Capital. Um estudo sobre o setor madeireiro de Boa Vista concluiu que empreendimentos em Boa Vista têm “maior facilidade e menor custo” na concessão de licenças porque os órgãos ambientais estadual e federal estão no mesmo município, enquanto serrarias do interior enfrentam deslocamentos e custos adicionais.

Toda essa combinação de fatores demonstra como a indústria do setor madeireiro impacta o meio ambiente desde a retirada da matéria-prima da floresta até a chegada do produto à casa das pessoas. 

A exploração desordenada pode causar perda de biodiversidade, erosão do solo, danos a rios e nascentes, além de afetar comunidades e contribuir para as mudanças climáticas. No processamento da madeira para a fabricação de produtos, o alto consumo de energia, a geração de resíduos e o uso de produtos químicos tóxicos também representam riscos ambientais e à saúde.

Os impactos continuam na etapa de transporte, armazenamento e embalagem, geralmente dependentes de combustíveis fósseis e materiais descartáveis, que aumentam a poluição e o desperdício. Diante desse cenário, cresce a necessidade de modelos mais responsáveis, baseados no uso consciente da madeira, no reaproveitamento de resíduos e na adoção de práticas que reduzam danos e ajudem a conservar as florestas.

Novos olhares para o beneficiamento da madeira, novos caminhos para o futuro

O uso de madeira de manejo florestal sustentável  e o reaproveitamento de sobras de serrarias são ações das chamadas marcenarias sustentáveis e carpintarias verdes, que contribuem para reduzir a pressão do desmatamento e o volume de resíduos que iriam para o descarte

Uma resposta prática a essa conjuntura de desperdício e má destinação de resíduos, está nos chamados processos verdes dentro do setor madeireiro, com trabalhos de carpintaria e marcenaria sustentável mais especificamente.

Ao utilizar apenas madeira legalizada, com prioridade para aquela proveniente de planos de manejo florestal sustentáveis, e, sobretudo, ao reaproveitar sobras e resíduos das serrarias, essas iniciativas reduzem a pressão do desmatamento e diminuem o volume de resíduos que iriam para o descarte. 

No sul de Roraima, mais precisamente na vila Nova Colina, no município de Rorainópolis, árvores com imperfeições, ocos, fissuras ou formatos irregulares que acabariam tendo apenas uma fração do volume utilizado, enquanto o restante seria descartado, queimado ou destinado ao carvão, acabam ganhando nova vida. 

A Orgânica, uma marcenaria familiar sustentável, única no Estado que trabalha com madeira nativa maciça com licença de operação das instituições regulamentadoras, recupera cerca de 30% da produção a partir de retalhos, cascas e sobras, destinando a serragem para geração de energia e transformando pedaços menores em tábuas de corte e peças decorativas. Iniciativas assim se alinham com princípios de ecoeficiência e produção mais limpa. Além de benefícios ambientais e sociais, o mercado também ganha com produtos de valor agregado, que antes seriam queimados ou descartados.

Fernanda Menezes, uma das proprietárias do empreendimento, explica que a ideia de adotar princípios de sustentabilidade em um negócio da área de madeira surgiu a partir de uma experiência profissional que teve na indústria do setor. 

Ela trabalhou por 10 anos na parte administrativa de uma grande indústria e a inércia que ela percebia frente ao grande desperdício registrado na empresa, a fez refletir sobre possibilidades para mudar essa realidade.

“Vi que era possível resgatar a credibilidade do setor madeireiro, unindo criatividade, esforço e muita responsabilidade ambiental, transformando resíduos em peças de alto valor, utilizando as sobras de madeira serrada para criar móveis únicos. A Orgânica existe para tentar diminuir o impacto ambiental causado pelas grandes empresas”, declarou.

Ela explica que a empresa trabalha a partir de três frentes principais: madeira serrada legalizada, com DOF (Documento de Origem Florestal) e obtidas de serrarias com planos de manejo florestal; madeira de reaproveitamento, com sobras diversas como cascas e quadrados ocados, sendo essa 30% da produção da empresa; e restos de árvores cortadas vindas diretamente de projetos de corte raso ou manejo de serrarias parceiras.

“Hoje o sistema DOF é focado na rastreabilidade. Então nós buscamos empresas que possuem a autorização, fazemos a parceria e adquirimos de forma legal dentro do sistema.Trabalhamos somente com fornecedores devidamente legalizados para madeira serrada e resíduos. Assim conseguimos vender e nosso cliente sabe exatamente de onde saiu a madeira. Além disso, não recebemos toras no nosso pátio, pois nossa licença é somente para beneficiamento. Não é um mercado fácil e estamos entrando nele aos poucos.”, observou.

As madeiras utilizadas na empresa, que possui um catálogo variado de produtos, que vão desde pó de serragem, móveis e portas, até forros e assoalhos, são das espécies Cumarú, Maçaranduba, Ipê, Angelim Vermelho, Angelim Pedra, cupiúba e outras madeiras amazônicas. 

Para o beneficiamento são utilizadas máquinas da marcenaria convencional (tupia, plaina, serra fita, destopadeira e serra circular), aliadas a técnicas artesanais, buscando equilibrar eficiência e acabamento de qualidade. Mas, segundo Menezes, há planos para o empreendimento adquirir equipamento chamado CNC Router (de grande porte) para produção de portas, além de implantar energia solar.

“Na parte de serragem e maravalha [lascas finas de madeira] temos parceria e contrato firmado com uma empresa em São João da Baliza, para o fornecimento da biomassa usada para gerar energia com caldeiras. Eles são responsáveis pela coleta e transporte. Já os retalhos e cavacos viram peças menores como bancos, tábuas de corte e produtos de decoração”, detalhou.

Atualmente, o produto mais vendido pela Orgânica é a porta de madeira maciça. Mas Menezes ressalta que a equipe da empresa atua de maneira a ter cuidados especiais com cada peça produzida. 

“Eu, pessoalmente, inclusive, faço questão de olhar cada peça. Usamos a criatividade de toda a equipe e transformamos ‘imperfeições’ em parte do design rústico, que oferecemos com diferencial”, comentou, ao destacar ainda que atualmente a madeira beneficiada pela marcenaria é vendida para o Nordeste, sendo transportada via container, e também para projetos de alto padrão em Boa Vista e para Manaus, no Amazonas. Além de viajantes interessados em peças únicas artesanais. 

NOVAS AÇÕES – Focado agora na frente de atuação com exportação, Menezes informou que a empresa está no processo de alcance do B2B (Business to Business ou de negócios para negócios, em português), que se trata de uma condição para negociações de compra e venda de produtos e serviços entre empresas. “O processo geralmente é lento, pois é burocrático e muito caro. Mas já estamos aptos a exportar nossos produtos e agora buscando parceiros e clientes com potencial de compra”, relatou.

Ela faz questão de reconhecer a importância do apoio e incentivo que tem recebido de instituições como o Sebrae (Serviços Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), para o alcance de diversos resultados necessários para o desempenho do negócio.

“Essa parceria fortaleceu e deu mais credibilidade. Além do oferecimento de ações importantes como palestras e capacitações, de oportunizar a participação em eventos e feiras voltadas ao tema sustentabilidade, também recebemos reconhecimento pelo trabalho que estamos desenvolvendo, por meio de prêmios e indicações nas esferas estadual e nacional”, comentou.

A empreendedora ressalta como acreditar e persistir em ações de longo prazo pode fazer a diferença no desenvolvimento de um negócio. “É muito difícil aqui no Estado atuar nesse nicho e por isso, encontrar uma marcenaria licenciada. Então todo esse histórico é motivo de orgulho pra mim. Investimos, cientes que colheremos a longo prazo”, declarou, ao informar também, que outra frente de atuação que está se dedicando é para a conquista de certificações ambientais como FSC (Forest Stewardship Council), concedido a empresas comprometidas com o manejo florestal. 

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